17/12/13

História de Natal II

Uma  história colorida de Alice Cardoso.

Natal nas Asas do Arco-Íris – Alice Cardoso


Era uma vez uma cidade cinzenta. As casas, as ruas, as árvores e o rio, eram cinzentos… Todo o céu que envolvia a cidade era cinzento…
As pessoas vestiam-se com roupas em tons de cinzento e os seus rostos eram tristes e carrancudos. Andavam sempre agitadas, demasiado ocupadas e sem tempo para conversar, rir ou passear.
Jerónimo vivia na cidade cinzenta e, tal como as outras crianças, sentia-se muito triste.
O Natal estava a chegar e sempre que ele pedia aos pais para o ajudarem a escrever a carta ao Pai Natal, a resposta era:
“Não tenho tempo. Há coisas mais importantes em que pensar.”
Jerónimo não compreendia… O que poderia ser mais importante do que o Natal?
Sentado no peitoril da janela e o nariz encostado ao vidro, Jerónimo olhava o céu e observava as nuvens que passeavam lentamente sobre a cidade.
— São tão lindas! — comentava o menino, apontando para uma nuvem bem lá no alto. — Aquela parece mesmo um leão a fazer o pino! E aquela parece… um coelho a jogar à bola! Será que há alguma que pareça um elefante a andar de patins? — questionava com ar pensativo.
De repente, um enorme elefante apareceu esculpido nas nuvens!
Jerónimo olhava fascinado. Seria possível? As nuvens estariam a convidá-lo para brincar?
Decidiu aceitar o desafio e embarcar naquele jogo maravilhoso… desconhecendo que eram as artes mágicas de Ariela que modelavam as nuvens ao sabor dos seus pedidos.
Ariela era uma pequena fada muito bonita, de asas transparentes, que voava graciosamente entre o céu e a terra.
Era muito alegre e amava a natureza com toda a sua beleza e cor. Por essa razão, ficou muito curiosa quando soube da existência daquela cidade cinzenta. Porque teria perdido a cor? Como seriam os seus habitantes? As crianças seriam felizes?
Ariela voava sobre a cidade, tentando encontrar uma explicação para aquele estranho lugar, quando ouviu as palavras de Jerónimo. Para o alegrar, resolveu brincar com ele, modelando as nuvens fofas que embelezavam o céu.
A pequena fada olhava, com ternura, para o rosto do pequeno Jerónimo e pensava no que poderia fazer para tornar especial o Natal das crianças daquela cidade cinzenta.
Então Ariela começou a assobiar. De imediato, ouviram-se vários assobios em uníssono que se confundiram com o sopro do vento.
Milhares de pequenas fadas, transformadas em pontos de luz, espalharam-se por todas as casas da cidade.
Os adultos, sempre ocupados, nada viram.
De repente, ao ritmo do assobio do vento, os mesmos pontos de luz desapareceram no céu.
Ariela sorriu. As fadas conheciam os desejos de todos os meninos da cidade cinzenta e iriam transmiti-los ao Pai Natal. As crianças não ficariam sem presentes!
E os adultos? Como poderia ajudá-los? Eles tinham-se esquecido da cor… da sua essência, da sua beleza, da sua alegria, da sua magia.
Sem cor a vida é triste e vazia.
Ariela pensou, pensou… e sorriu. Depois, bateu as suas delicadas asas transparentes e voou, ligeira, até ao céu.
Era véspera de Natal. Jerónimo acordou, abriu a janela do seu quarto e ficou maravilhado. Estava a nevar. Mas não era uma neve qualquer! Flocos de todas as cores desciam lentamente do céu azul, transformando toda a cidade cinzenta numa paleta colorida.
Jerónimo viu o verde nas árvores, o prateado na água do rio, o amarelo nas flores, as cores do arco-íris nas casas, o dourado nos enfeites de Natal…
Aos poucos, as ruas foram-se enchendo de pessoas de todas as idades que vestiam roupas de todas as cores e que conversavam, corriam, saltavam, brincavam e riam. E a neve ia caindo em flocos leves e coloridos…
Lá no alto, sentadas nas nuvens, Ariela e as outras pequenas fadas moldavam os flocos de neve, pincelando-os delicadamente com as tintas do poder da fantasia e lançando-os no ar com um sopro suave.
De vez em quando, atiravam pequenos flocos umas às outras numa brincadeira alegre e divertida.
Ariela viu o pequeno Jerónimo e os seus pais fazerem um enorme boneco de neve azul com olhos verdes, boca vermelha, chapéu preto, nariz cor-de-laranja… Davam abraços e soltavam gargalhadas!
A fada viu, ainda, as pessoas a entoarem cânticos natalícios… e a desejarem umas às outras um “Feliz Natal”!
A cor voltou aos corações! — pensou Ariela.
De repente, olhou o horizonte e sorriu. O seu ouvido apurado ouviu, lá ao longe, o tilintar dos sininhos do trenó do Pai Natal!

 Cardoso, A. (sd). Natal nas Asas do Arco-Íris. Gaia: Edições Nova Gaia.

10/12/13

Dia Internacional dos Direitos Humanos

   O Dia Internacional dos Direitos Humanos é celebrado anualmente a 10 de Dezembro. Esta data foi escolhida para honrar o dia em que a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou, a 10 de dezembro de 1948, a Declaração Universal dos Direitos do Homem.
   A Declaração Universal dos Direitos do Homem enumera os direitos humanos básicos que devem assistir a todos os cidadãos. Esta declaração foi assinada por 58 estados e teve como objetivo promover a paz e a preservação da humanidade após os conflitos da 2ª Guerra Mundial que vitimaram milhões de pessoas.
   Esta comemoração visa também homenagear o empenho e dedicação de todos os cidadãos defensores dos direitos humanos e pôr um fim a todos os tipos de discriminação, promovendo a igualdade entre todos os cidadãos. Este ano o Prémio de Direitos Humanos será atribuído aos ativistas Biram Dah Abeid, da Mauritânia, Hiljmnijeta Apuk, do Kosovo, Liisa Kauppinen, da Finlândia, Khadija Ryadi, de Marrocos, e à jovem paquistanesa Malala Yousafzai, bem como ao Supremo Tribunal de Justiça do México.
   O dia 10 de Dezembro é também marcado pela entrega do Prémio Nobel da Paz.

09/12/13

História de Natal I

Até ao Natal iremos publicar algumas histórias relativas à quadra natalícia. Vamos começar com uma de António Torrado. Esperamos que gostem!


O peru que correu a cidade metido dentro de um cesto
Há bem perto de três meses que o Senhor Firmino mantinha, na capoeira do seu quintal, um bonito peru, alimentado a preceito com sopinhas de pão, migas de couves e milho do melhor.
Uns dias antes do Natal, o Senhor Firmino agarrou o peru pelas asas, a calcular-lhe o peso, e disse para a mulher:
— Está em boa conta.
A mulher do Senhor Firmino fez que sim com a cabeça, limpou as mãos ao avental e foi à cozinha. Ao ver estes preparos, o peru sentiu-se muito levezinho e pensou: «Agora é que é… Ela vem com a faca e…» Afinal, em vez da faca, a mulher do Senhor Firmino trouxe da cozinha uma fita vermelha que atou às pernas do peru, em jeito de laçarote.
— O nosso compadre Augusto vai gostar — disse o Senhor Firmino.
A mulher do Senhor Firmino fez que sim com a cabeça e meteu o peru dentro dum cesto.
* * * *
— Ó mana, venha ver o presente que o compadre Firmino me mandou. Bonito peru!
A mana do Senhor Augusto veio da cozinha com uma faca na mão…
«Ai! Ai! Ai! Desta é que eu não escapo», pensou o peru, muito encolhido dentro do cesto.
— Espere lá, mana! — exclamou o Senhor Augusto. — Este peru tão bonito estava mesmo a calhar para o Doutor Hipólito. Ele tem sido tão atencioso, tão simpático… Que acha, mana?
A mana do Senhor Augusto achou bem.
* * * *
— Senhor doutor, para onde quer que leve o peru? — perguntou a empregada do Doutor Hipólito em pessoa.
— Leve-o para a cozinha…
«É desta. Desta vez é que é…», pensou o peru todo a tremer e a encher-se de suores frios. Mas o Doutor Hipólito mudou de ideias:
— Nós já temos um peru para a ceia, um outro peru para o dia de Natal, ainda outro para o dia de Ano Novo. Este peru está a mais. Pensando bem, talvez seja mais sensato oferecê-lo ao senhor Inspector.
* * * *
— Mais um peru! — disse, muito arreliado, o senhor Inspector. — Se os vou matar a todos, fico enjoado de peru para toda a vida.
O peru, dentro do cesto, com as patas atadas pelo laçarote vermelho, nem se mexia de tão atrapalhado que estava.
— Como é que me hei-de livrar deste peru? — dizia o senhor Inspector. — Já sei. Mandem-no ao senhor Capitão, com os meus cumprimentos.
* * * *
Pobre peru. Em cada nova casa em que entrava era um desmaio. Sacudido de um lado para o outro, em bolandas de aqui para ali, o infeliz conheceu quase todas as casas dos senhores importantes daquela cidadezinha de província.
«Agora é que é!», não era.
«Desta não escapo!», escapava.
«Ai que eu morro!», não morria.
Da casa do senhor Capitão, passou à do senhor Major. O senhor Major ofereceu-o ao senhor Tenente-Coronel. O senhor Tenente-Coronel ofereceu-o ao senhor Brigadeiro. O senhor Brigadeiro não o ofereceu ao senhor General, porque lhe tinham dito que o senhor General só podia comer pescada cozida. Em compensação, ofereceu-o ao senhor Arcebispo, com os seus respeitosos cumprimentos e desejos de Boas-Festas.
Se o peru desse acordo de si, talvez pensasse que, por aquele andar, ainda viria a conhecer o Papa. Mas o pobre peru, mirrado e doente com tantas emoções, já nem forças tinha para pensar o que quer que fosse.
Na capoeira do jardim do senhor Arcebispo, havia vinte e três perus, onze gansos, quinze patos e outros bicos de menor importância.
— Vou dar um bodo aos pobres. No dia de Natal não quero uma única ave na minha capoeira — ordenou o piedoso Arcebispo.
E nem houve tempo para desatar as pernas ao desgraçado peru. Cumprindo as ordens do senhor Arcebispo, os criados começaram imediatamente a fazer a distribuição das galinhas, galos, patos, gansos e perus pelos pobres mais necessitados da diocese. O peru do laçarote coube ao Jacinto, o Jacinto carpinteiro.
Juntou-se a família toda para ver o peru.
— Como o senhor Arcebispo é bondoso — dizia a mulher do Jacinto.
— Que bonito peru — dizia o sogro do Jacinto.
— Um laçarote encarnado! — dizia o filho mais novo do Jacinto, um trapalhão a falar.
«Desta não me salvo!», pensava, todo chupadinho de medo, o peru.
— É pena que já tenham deitado o bacalhau de molho para a ceia — monologava o Jacinto. — Talvez não fosse mal feito mandar o peru de presente ao meu patrão… Ele ficava satisfeito e como eu lhe devo uns certos favores…
* * * *
— Olha bem para este peru que o pequeno do Jacinto me trouxe. Não parece mesmo o nosso peru? — perguntou o Senhor Firmino à mulher.
A mulher do Senhor Firmino fez que sim com a cabeça.
— Ainda vem com o laçarote e tudo! Que voltas teria ele dado até voltar cá para casa?
O Senhor Firmino nunca se espantara tanto.
— E como ele está magro, coitado! Até parece que mirrou pelo caminho!
Com tantos sustos, o peru ficara só em penas, pele e ossos. Nem uma febrazinha de carne que prestasse.
— Volta para a capoeira — decidiu o Senhor Firmino. — Ele que engorde, porque no próximo Natal vamos dá-lo…
— Ao compadre Augusto, nunca mais! — interrompeu a mulher.
— Claro que não. Vamos dá-lo… ao Doutor Hipólito. Aposto contigo em como o endemoninhado do peru vem cá parar outra vez. Tinha a sua graça!
* * * *
Pois claro que tinha a sua graça. Eu é que não estou para contar outra vez a mesma história. E o peru que goze muitos anos regalados de boa vida!…
Torrado, A. (2005). Dezembro à porta. Porto: Edições ASA